São Paulo, 04 de novembro de 2025 – Foi lançada hoje, terça-feira (04/11), a ABCD – Ação Brasileira para Consciência Digital, associação sem fins lucrativos que reúne aliados nacionais e internacionais, para a proteção, conscientização e defesa da criança e do adolescente nos ambientes digitais. A entidade atuará com o objetivo de contribuir para um mundo digital mais seguro, saudável, justo e ético para os jovens.
Durante o evento de lançamento, realizado no Centro Brasileiro Britânico (CBB), em São Paulo, a entidade contou com a participação de sua diretoria, com destaque para a presença internacional da advogada espanhola Ana Caballero, vice-presidente da Associação Europeia para a Transição Digital (AETD). Caballero abordou a experiência da AETD e discutiu os últimos avanços na regulação dos meios digitais alcançados na Comunidade Europeia.
Entre os objetivos da ABCD está realizar campanhas educativas sobre o uso seguro da internet, trabalhar em iniciativas com foco na mobilização e capacitação de pais, educadores, escolas e poder público. Incentivar pesquisas e estudos sobre cidadania digital, promover debates, defender políticas públicas que garantam um ambiente digital mais seguro e ético.
O evento contou também com a participação de Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entidade parceira da ABCD, que abordou o crescimento da violência entre jovens no ambiente digital a partir de pesquisas e estudos conduzidos pelo fórum. A ABCD apresentou, ainda, dados exclusivos de uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha sobre a segurança para crianças e adolescentes no mundo digital.
A pesquisa “Vitimização e percepção sobre violência e segurança pública: um olhar sobre crime patrimonial e violência”, organizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Públicas e realizada pelo Instituto Datafolha, traz resultados inéditos encomendados pela ABCD que mostram que os desafios relacionados ao uso da internet e das redes sociais por menores de 18 anos, como o cyberbullying, ainda enfrentam subnotificação e falta de dados, o que torna ainda mais difícil estabelecer métricas e ações para combatê-los.
De acordo com a pesquisa, um em cada cinco brasileiros afirma ter em suas famílias ao menos uma criança ou adolescente vítima de bullying – virtual ou presencial – nos últimos 12 meses, o equivalente a pelo menos 34,4 milhões de vítimas.
Além disso, outro dado relevante identificado pela pesquisa é que cerca de 5% dos brasileiros – o equivalente a 8,6 milhões de pessoas -, afirmaram conhecer crianças ou adolescentes vítimas de “desafios” violentos em plataformas digitais, como práticas de automutilação e incitação à violência.
A pesquisa “Vitimização e percepção sobre violência e segurança pública: um olhar sobre crime patrimonial e violência” foi realizada entre os dias 02 e 06 de junho de 2025 e ouviu 2.007 pessoas. O estudo teve abrangência nacional.
Segundo a empresária, estrategista, palestrante e comunicadora Christina Carvalho Pinto, diretora da ABCD, “é urgente despertar pais e cuidadores dessa ilusão de que crianças e adolescentes, quando estão dentro de casa, estão seguros. Não apenas despertar da perigosa ilusão, mas conscientizar e fornecer ferramentas para uma parentalidade corajosa, presente e responsável. Com as falhas na regulação e a falta de segurança nos ambientes digitais, uma criança ou adolescente, dentro de casa, está solto num mundo imenso e desconhecido. Os fatos mostram o terrível resultado. A ABCD defende a urgência na adoção de ações relacionadas à proteção e defesa de vulneráveis no mundo digital. Meu recado inicial é simples e direto: se você quer liderar sua vida, comece liderando seu celular. Só a mudança de hábito – a começar pelos adultos – abrirá as portas para uma nova realidade, saudável e segura”.
De acordo com o jornalista e especialista em comunicação corporativa Luís Henrique Amaral, diretor-executivo da Ação Brasileira para Consciência Digital, esse cenário exemplifica os motivos que levaram à criação da ABCD. “Os dados levantados pela pesquisa evidenciam que não somente o bullying, mas diversos outros crimes digitais, como violência de diferentes formas e até mesmo indução ao suicídio, são crimes que atingem cada vez mais crianças e adolescentes em todo o Brasil. Em muitos casos, as famílias e as autoridades públicas sequer tomam conhecimento. A ABCD nasce com o objetivo de contribuir para mudar esse cenário e tornar o ambiente digital mais seguro e saudável para os jovens”, explica.
Para Fernanda Rizzo di Lione, diretora da ABCD e psicóloga fenomenógica-existencial, é essencial entender as responsabilidades de todos para que os jovens tenham um ambiente digital mais seguro. “Precisamos estar abertos ao diálogo, à troca de opiniões e a nos expor. Ainda podemos desenvolver novas estratégias para melhor lidar com essa nova realidade trazida pela vida digital. Nesse sentido, a ABCD nasce para contribuir por meio de reflexões, estudos e propostas sobre os impactos emocionais, comportamentais e cognitivos do uso de tecnologias digitais, especialmente entre crianças, adolescentes, pais, educadores e demais atores sociais”, afirma.
O evento de lançamento da ABCD contou, ainda, com um painel de debates composto por lideranças de organizações aliadas à entidade. O painel contou com a participação de Isabella Henriques, diretora-executiva do Instituto Alana, Cynthia Betti, CEO da Plan International Brasil, Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Cristina Cordeiro – diretora Adjunta do Instituto Liberta, Maria Nilce Mota, superintendente de Ação Social e Filantropia do CIEE, Catarina Fugulin, líder de Políticas Públicas e Relações Institucionais do Movimento Desconecta, e Abner Hilário, fundador do PRODIGIOZ.
Estudos evidenciam a necessidade de mais segurança nos ambientes digitais
Os dados da pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha somam-se a outros resultados apurados em pesquisas recentes organizadas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com foco na segurança de crianças e adolescentes em ambientes digitais que evidenciam como a internet e as redes sociais se tornaram um cenário extremamente perigoso.
Ao se verificar o número de registros oficiais de bullying, por exemplo, existe uma grande discrepância. Em 2024, foram registrados somente 2.995 casos oficiais de bullying com vítimas de 0 a 17 anos, dos quais apenas 15,1% classificados como cyberbullying – aproximadamente 450 casos, segundo o “Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025”, organizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Esse número contrasta com a percepção dos profissionais que trabalham nas escolas. De acordo com o boletim técnico “Escola que protege”, produzido pelas equipes técnicas do Ministério da Educação, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com cooperação da Unesco no Brasil, cerca de 4 em cada 10 diretores de escolas afirmaram já terem vivenciado casos de bullying.
A importância a respeito do debate sobre o tema levou o Anuário Brasileiro de Segurança Pública a trazer, na edição deste ano, um capítulo dedicado exclusivamente ao bullying e ao cyberbullying, com base na publicação da Lei nº 14.811, que incluiu essas práticas entre os crimes hediondos quando resultarem em lesão corporal grave ou morte, além de ter inserido essas ambas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e na Lei Maria da Penha, quando configuradas no contexto de violência doméstica e familiar. A nova legislação alterou dispositivos do Código Penal (Art. 146-A), estabelecendo penas mais severas, sobretudo em casos de cyberbullying.
Em âmbito nacional, de acordo com o levantamento, foram contabilizados registros de cyberbullying equivalentes a uma taxa de 1,1 por 100 mil crianças e adolescentes, índice muito inferior ao do bulliyng físico. A concentração nas faixas etárias correspondentes à adolescência (gráfico abaixo), reforça a hipótese de que o cyberbullying se associa ao acesso às redes sociais e plataformas digitais, sendo muitas vezes uma continuidade ou desdobramento das intimidações sistemáticas face-a-face.
O número é baixo se comparado ao fenômeno do bullying. Porém, é importante ter em vista que o que chega às polícias para registro criminal é um pequeno recorte dos casos de maior gravidade, que extrapolam o mandato pedagógico das escolas, por exemplo.