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Até onde nossas crianças estão seguras, mesmo dentro de casa?

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Até onde nossas crianças estão seguras, mesmo dentro de casa?

Olá, cara mãe, pai, tutores de crianças e adolescentes e pessoas preocupadas com a questão do vício nas telas.

Como vai a vida ao lado das suas crianças e jovens?


Como falamos no primeiro artigo, uma das propostas do nosso grupo é poder nos ajudar mutuamente a entender e a desenvolver ferramentas para melhor lidar com o mundo digital, que está tão presente nas nossas vidas. Se lembrarmos do quanto a maioria dos jovens e crianças de hoje em dia tem familiaridade e facilidade com os dispositivos eletrônicos, fico pensando que temos uma razoável desvantagem se comparados a eles. Quantos de vocês já pediram ou pedem frequentemente ajuda para seus filhos para fazer alguma coisa no celular?

Não há dúvida que a tecnologia nos ajuda em um monte de coisas, e todos sabemos disso. Mas também devemos olhar para a parte em que a tecnologia pode nos prejudicar e, pior, podemos nem perceber que isso está acontecendo. Vamos voltar para casa, mais especificamente para o quarto onde nossas crianças ou adolescentes ficam muitas horas sozinhos e de porta fechada.

 

Como adultos responsáveis, pensamos que eles estão seguros, num lugar protegido e sem ameaças. Isso seria verdade se os dispositivos eletrônicos estivessem DESLIGADOS. O quarto parece um mundo privado, mas na verdade ele se tornou público por causa da internet. Como se isso não bastasse, ele é um mundo público e, ao mesmo tempo, desconhecido. Nós ACHAMOS que sabemos quem está do outro lado. Será que a outra pessoa com quem nosso filho está se relacionando através da tela é mesmo com quem ele pensa que é? Na internet, o usuário pode nunca estar numa relação privada, pois o outro pode estar gravando ou fotografando, e o usuário não sabe. Você, adulto como eu, já tinha se dado conta desta vida pública com “cara” de vida privada? Se não, imagina nossas crianças e adolescentes. Precisamos explicitar isso para eles. E precisamos fazer isso algumas vezes até que todos entendamos e nos apropriemos do potencial de risco que estamos correndo.

 

Existe uma particularidade do nosso mundo atual que conversa com a diferenciação de público e privado que também chama a atenção. Quando a gente pensa em proteger nossos filhos de violência, em que violência estamos pensando? Um roubo de bicicleta, um roubo de celular, alguém que te assalta no trânsito… certo?

 

Situações essas onde estamos vivendo nossa vida no espaço público das ruas e somos surpreendidos por alguém (ou “alguéns”) que aparecem do nada, levam algo nosso e desaparecem em segundos, nos deixando atônitos, paralisados, nos sentindo como vítimas. Pois é, esse tipo de violência continua acontecendo, mas temos agora uma nova violência, aquela que é on-line.

 

Sendo on-line, na maioria de vezes não percebemos que estamos sendo violentados até que algum amigo avise que estão pedindo dinheiro usando o seu nome e número de celular, até que alguém na escola diga que viu um “nude” seu em um site que você jamais visitou. Até que você descubra que seu cartão está sendo usado numa loja que você jamais entrou. Tudo parece cotidiano e comum, pois está acontecendo sem que a gente se dê conta. Só que não é!

Vocês viram a série “Adolescência”, da Netflix? Sei que se falou muito dela há alguns meses, mas gostaria de trazer uma reflexão sobre os diferentes tipos de violência que estamos expostos atualmente. (A série tem muitas outras reflexões, se vocês quiserem, podemos conversar em outro artigo, só me digam.) 

 

Todo mundo concorda que há muita violência na cena dos policiais invadindo a casa, certo? Eles entram sem pedir licença, num momento em que estão todos dormindo, fazendo barulho, invadindo a casa, os quartos, e sem dar muita explicação. Essa violência nós conhecemos e reconhecemos. Mas antes dela, por trás dela, teve uma violência articulada pela internet, por aplicativos que usam códigos que são carinhas simpáticas, figurinhas coloridas que têm um significado completamente diferente do que parecem.

 

Uma violência “on-line”, extremamente agressiva, solitária e velada; parece, mas não é. Uma violência tão pesada que levou um jovem de 13 anos a cometer um assassinato. E mais pesado ainda: será que esse jovem tem a dimensão da gravidade do seu ato? Como ele consegue estar, aparentemente, dormindo tranquilamente, no seu quarto, cercado de desenhos espaciais e um bichinho de pelúcia? Duro, né? A gente facilmente reconhece a violência dos policiais, mas precisou dos quatro capítulos para entender a violência on-line contida no aplicativo e nos emojis. É forte, não é?

 

Nossas crianças e jovens, que se relacionam muito através da tela, estão tendo vivências empobrecidas, estão deixando de aprender a sentir o outro através da troca de olhar, do tom da voz, de sentir a emoção do outro. Eles não estão aprendendo a linguagem da vida real e estão ficando “experts” na linguagem da vida digital.

 

Tudo parece tão cotidiano e comum, mas não é!!!

 

Como comentei no texto anterior, nosso trabalho só tem sentido se tivermos você como nosso interlocutor, interessado e aberto ao que podemos refletir, avaliar e considerar juntos. Espero que você envie suas perguntas e faça comentários para que, juntos, desenvolvamos maneiras de lidar e viver melhor no nosso mundo atual.

 

Obrigada pela parceria! Até o próximo artigo.

 

Um forte abraço, Fernanda.

ABCD. Consciência Digital começa na infância.

A Ação Brasileira pela Consciência Digital – ABCD é uma entidade sem fins lucrativos que tem como objetivo contribuir para o desenvolvimento do ambiente digital no Brasil, especialmente nas questões das crianças e adolescentes e dos impactos econômicos das novas tecnologias na vida dos nossos cidadãos.

A ABCD é a parceira brasileira da Associação Europeia para a Transição Digital – AETD, entidade sediada na Espanha.